
- Oi, tudo bem?
- Tudo... Mas quem é você?
- Eu sou você amanhã.
- Amanhã? Como? Você tá aqui hoje!
- É que eu queria te dar um aviso import...
- Peraí! Se você sou eu amanhã, então pra você hoje é ontem?
- Tecnicamente sim.
- Ah tá, mas o que você quer mesmo?
- Te dar um aviso.
- Peraí de novo! Você me diz que sou eu amanhã, agora quer me dar um aviso importante. Você não é nem parecido comigo! Olhaí essa cara toda deformada, essas muletas... Cê quer dinheiro é? Toma, aqui tem dez reais! Coisa de graça não presta!
- Não quero seu dinheiro! Afinal, ele também é meu. E se você me der dez reais hoje, amanhã vou ter dez reais a menos. Se bem que, você, quer dizer, eu hoje, que pra você é amanhã, vou receber esses dez reais de volta. Não vai adiantar nada.
- Pelo menos é um investimento mais rentável que a bolsa. Com essa crise, se você dá dez hoje, amanhã vai ter cinco. Se você é quem diz quem é, o que eu duvido, esse é um investimento mais seguro. E se esses dez reais servirem pra você parar de me importunar e ir tentar enganar outro com essa lorota...
- Eu juro que é verdade!
- Olha pra você! Eu não tenho essas cicatrizes, tenho todos os dentes, tenho os dois olhos.
- Bem, eu...
- Quer saber? Toma aqui mais dez conto e não enche o s...
Ao virar-se para ir embora, o cético rapazote foi atingido de supetão por um ônibus desgovernado. Meses depois da cirurgia, lá estava ele, todo estropiado, deformado, de muletas, todo cheio de cicatrizes, quase sem nenhum dente e com um novíssimo olho de vidro da cor verde, já que não se fabricavam mais olhos castanhos como antigamente.
Ainda zonzo, talvez pelo dopping alucinógeno que os doutores lhe deram pra diminuir a dor, viu um sujeito parado na rua e foi falar com ele.
- Oi, tudo bem?
- Tudo, mas quem é você?
- Eu sou você amanhã.
- Amanhã? Como? Você tá aqui hoje!
- É que eu queria te dar um aviso important...
- Peraí! Seu eu sou você amanhã, então pra você hoje é ont...
Antes que conseguisse terminar a cética frase, o cético rapazote foi atingido por uma violenta muletada e caiu apagado.
- É melhor uma concussãozinha do que viver o resto da vida aleijad...
Ao virar-se para ir embora, o cético e esmilinguido rapazote que sabia ser o cético rapazote de amanhã, só teve tempo de ouvir a freada brusca de um ônibus desgovernado, que esmagou o crânio do cético rapazote de hoje estirado no chão.
Obviamente, como qualquer outro cético, com exceção do cético rapazote hoje, agora jazido no asfalto, todo mundo poderia imaginar que, ao roçar das rodas do ônibus na desprotegida e adormecida cabeça de seu alter-ego dos dias atuais - o que pra ele, certamente seria ontem - o cético e arrebentado rapazote de amanhã instantaneamente sumiu. Plof, no melhor estilo saramaguense, poupando com uma rápida onomatopéia um processo de descrição de um desaparecimento instantâneo que poderia durar centenas de linhas. Plof, simples assim.
E todos os outros seres humanos que passavam por ali continuaram a viver suas vidas sem jamais saber dessa estranha desaventura, tendo apenas um certo enjôo ao ver aquele corpo sem cabeça, a não ser em alguns mais dados à reflexão, em que, mesmo por um ralo momento, foram surpreendidos por um não menos ralo pensamento:
"Mais vale viver as dificuldades ofertadas pelo presente do que perder a cabeça tentando consertar as besteiras do passado".